O acordo Mercosul x Europa é bom ou ruim pro brasileiro?
Anderson Rocha
Redação ClubVip
1. Introdução: A lenda urbana que virou realidade (quase)
Sabe aquela obra na sua rua que demorou tanto que você achou que fazia parte da geografia natural do bairro? Pois é. O acordo Mercosul x Europa é a versão diplomática disso. Depois de 25 anos de negociações, pausas dramáticas, "DRs" climáticas e mais idas e vindas que namoro de adolescente, parece que finalmente a coisa andou.
Mas agora que a poeira baixou e os diplomatas pararam de beber champanhe (ou espumante, falaremos disso já já), a pergunta que não quer calar na mesa do bar é: isso vai encher o meu bolso ou só vai servir para eu ver queijo francês barato na vitrine enquanto pago o IPVA atrasado? Vamos mergulhar nessa sopa de letrinhas burocrática com uma pitada de realidade.
2. O acordo em si: O que foi assinado nessa papelada toda?
Basicamente, o Mercosul (nós e os hermanos) e a União Europeia decidiram criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Em resumo: um prometeu parar de cobrar imposto sobre as coisas do outro.
A Promessa: O Mercosul vai zerar as tarifas de importação para 91% dos produtos europeus. A Europa vai zerar para 92% dos nossos.
A Pegadinha (sempre tem): Não é "liberou geral" amanhã. É um striptease econômico. As tarifas vão cair lentamente ao longo de 10 a 15 anos. Ou seja, até o imposto zerar de verdade, seu sobrinho que nasceu ontem já vai estar reclamando de dor nas costas.
As Cotas: Carne, frango, açúcar e etanol não terão livre acesso infinito. Eles entrarão na Europa sem taxa, mas até um limite (uma cota). Passou disso? Paga imposto cheio. É tipo rodízio de carne: você pode comer à vontade, mas só as peças que o garçom quiser trazer.
3. É bom pro empreendedor exportador brasileiro? (O "Agroboy" venceu?)
Se você planta soja, cria boi ou produz suco de laranja, pode sorrir. O acordo é praticamente uma carta de amor ao agronegócio brasileiro.
O Lado Bom: O suco de laranja e as frutas vão entrar na Europa sem taxas (hoje pagam tarifas salgadas). O café solúvel e o açúcar também ganham espaço.
O Charme da Cachaça: Uma grande vitória foi o reconhecimento das Indicações Geográficas. A Europa vai ter que aceitar que Cachaça é brasileira. Ninguém vai poder fazer uma aguardente de cana na Alemanha e chamar de cachaça. O mesmo vale para o Queijo da Canastra.
O Sarcasmo: Se você tem uma fábrica de manufaturados complexos e quer exportar chips de alta tecnologia para a Alemanha... bem, boa sorte. A briga vai ser de Davi contra Golias, mas sem a parte que o Davi ganha.
4. É bom pro empreendedor importador brasileiro? (Adeus, máquina velha?)
Aqui a coisa fica interessante para quem precisa modernizar a fábrica.
O Lado Bom: Máquinas, equipamentos industriais e insumos químicos europeus (que hoje pagam 14% a 18% de imposto) vão ter tarifa zero. Isso significa que a indústria brasileira pode, em tese, comprar tecnologia de ponta mais barato para tentar ser competitiva.
O Lado "Custo Brasil": O importador vai pagar menos imposto na fronteira, mas quando o produto chegar aqui, ele ainda vai encontrar o ICMS, o PIS/COFINS e a burocracia do porto esperando com um pedaço de pau na mão. O acordo tira a tarifa de importação, mas não faz milagre com o manicômio tributário interno.
5. É bom pro consumidor brasileiro? (Vou comprar BMW a preço de Gol?)
Calma, jovem. Não se emocione.
Vinhos e Queijos: Sim, vinhos, queijos, azeites e chocolates europeus vão ficar mais baratos (progressivamente). Aquele jantar romântico vai pesar menos.
A Tragédia do Parmesão: Lembra das Indicações Geográficas? O Brasil concordou em proteger nomes europeus. Isso significa que, em alguns anos, o queijo "Parmesão" feito em Minas Gerais vai ter que mudar de nome (talvez para "Queijo Duro Ralável Tropical"), porque Parmigiano de verdade, só o da Itália.
Carros: A tarifa de 35% sobre carros europeus vai cair para zero em 15 anos. Vai ficar mais barato? Vai. Mas lembre-se que o carro no Brasil é caro não só por causa da importação, mas porque as montadoras sabem que a gente paga.
6. A indústria nacional tecnológica: Morre de vez ou volta a "Reserva de Mercado"?
Aqui tocamos na ferida dos geeks com mais de 40 anos. Quem viveu os anos 80 lembra da traumática "Reserva de Mercado" do regime militar, onde era proibido importar computadores. O resultado? A gente pagava o preço de um carro por um computador nacional que era basicamente uma calculadora glorificada, enquanto o mundo usava Apple e IBM.
O novo acordo é o oposto disso, mas com um "plot twist":
O Fim do Isolamento: Ao contrário da ditadura, que fechou as fronteiras, o acordo abre. Componentes eletrônicos e máquinas de alta tecnologia europeias (como as da Siemens ou Ericsson) ficarão mais baratos para a indústria brasileira usar. A ideia da ABINEE (Associação da Indústria Elétrica e Eletrônica) é que, importando peças melhores e mais baratas, a gente consiga montar produtos finais competitivos para exportar.
A "Salvação" Governamental: "Mas a indústria nacional vai falir com a concorrência europeia?". Talvez não. O Brasil conseguiu uma cláusula vital: Compras Governamentais. O governo brasileiro não é obrigado a abrir licitações para europeus em áreas estratégicas como saúde (SUS) e defesa.
O Pulo do Gato: O governo manteve o direito de fazer "Encomendas Tecnológicas". Ou seja, se o governo quiser pagar uma fortuna para uma empresa brasileira desenvolver um software ou satélite nacional, ele pode, sem ter que deixar a empresa alemã concorrer. É um "protecionismo gourmet": abrimos o mercado para o consumidor, mas o governo ainda pode bancar o "padrinho" da tecnologia nacional se quiser.
Então, não, não vamos voltar à era de contrabandear Atari do Paraguai. A tendência é modernizar o parque industrial na marra, mas mantendo o Estado como cliente VIP das empresas de tecnologia locais.
7. Conclusão: Copo meio cheio, meio vazio ou quebrado?
O acordo Mercosul x Europa é aquele remédio amargo que o médico jura que vai fazer bem a longo prazo.
Para o Agro, é champanhe (ou melhor, espumante nacional com Indicação Geográfica). Para o Consumidor, é a promessa de vinhos e carros melhores em 15 anos — se tivermos dinheiro até lá. E para a Indústria Tecnológica, é o fim definitivo do sonho da autossuficiência isolacionista dos anos 80: ou se moderniza comprando tecnologia europeia barata para agregar valor, ou vira peça de museu.
No fim das contas, a porta foi destrancada. O Brasil decidiu que prefere jogar na Champions League apanhando no começo do que ser campeão invicto do campeonato de várzea jogando sozinho. Se isso vai dar certo? Só o tempo (e o Custo Brasil) dirão.
Escolha seu Avatar
💬 Comentários 0
Nenhum comentário ainda.
Seja o primeiro a compartilhar sua opinião!